O Atentado Contra Bolsonaro e A Democracia Ameaçada

Rafael Tauil
segunda-feira, 10 de Setembro de 2018 - 09:00

 

 

No dia subsequente ao ataque contra Jair Bolsonaro, li muita coisa e fiz uma pequena pesquisa sobre o tema na internet, nos jornais e em outros meios de comunicação, mas dei principal atenção aos posts do Facebook, tribunal onde a sociedade tem se manifestado através de suas crenças pessoais, tentando fazer valer suas teses, teorias e hipóteses sobre diferentes acontecimentos e seus futuros desfechos.

Fica a impressão de que ali a tentativa de entender de fato a realidade e suas ramificações é pequena. Algo natural no contexto em que vivemos, momento em que nos encontramos carentes de verdades, líderes e, pior, luzes no final do túnel.

Como forma de proteção cada um vem construindo suas próprias verdades e se abrigando sob elas. Saramago fez provocações brilhantes sobre o tema em seu fascinante As Intermitências da Morte (2005). Ele demonstra em sua obra que este parece ter sido o grande feito da religião com relação à morte, uma resposta eficiente a algo que não tem resposta.

A facada no candidato à presidência representa mais do que apenas o esgarçamento quase total do tecido social de nossa comunidade nacional, representa também a polarização do país levada ao seu extremo. Infelizmente, este fato nos leva novamente a questionar a raiz de acontecimentos como a morte de Eduardo Campos, do ex-ministro Teori Zavascki, de Marielle Franco e os tiros contra a caravana de Lula.

De forma paulatina, se o retrocesso continuar, voltaremos ao estado de natureza hobbesiano, no qual o homem é o lobo do próprio homem (do latim Lupus est homo homini lupus), onde cada indivíduo vive sob o estado de terror, sob o medo eminente da morte. Não precisaremos chegar a este extremo para que nosso pacto social seja refundado sobre bases violentas. Na verdade, ao que parece, ele já está em vias de.  Fica a impressão de que, pelo cenário conturbado que vimos assistindo na política, teremos duas opções como desfecho: a ruptura da ordem democrática ou a eleição de um candidato de extrema direita, no melhor estilo fascista.

Márcio Pugliesi, grande filósofo do Direito, colocou uma questão fundamental numa palestra que proferiu na Escola Paulista de Direito há algumas semanas atrás: diante dos últimos acontecimentos, a constituição de 1988 será capaz de garantir a transferência da faixa presidencial no dia 1° de janeiro de 2019, sem o desmantelamento das instituições democráticas?

Vejo as facadas em Bolsonaro, o ódio proferido por ele e contra ele - e que seus eleitores vociferam contra os que se colocam como opositores do candidato -  como um fenômeno descrito pela filósofa Hanna Arendt como "banalidade do mal". Em sua brilhante obra Eichmann em Jerusalém: Um Relato Sobre a Banalidade do Mal (1964), Arendt chamou a atenção para as ações de um tenente- coronel do Partido Nazista que contribuiu com a estruturação logística das deportações em massa dos judeus durante o Holocausto Nazista.

Adolf Eichmann, que havia fugido da Alemanha para a Argentina após a derrota germânica na II Guerra Mundial, foi capturado e levado para Israel para ser julgado num tribunal especial. O que espantou Arendt foi o fato de o tenente-coronel não demonstrar culpa individual por seus crimes, visto que - segundo sua visão -  não exercia ali papel de liderança e cumpria apenas ordens, o que o absolveria de qualquer tipo de culpa pessoal.

A filósofa classificou o pensamento de Eichmann como desprovido de qualquer traço característico de humanidade, ou seja, de qualquer capacidade crítica de classificar aquilo que é certo ou errado. Ao que parece, a violência que toma conta de nossa sociedade – seja com facadas em Bolsonaro ou com tiros na caravana de Lula, entre outros atos de agressividade, aspereza e bestialidade – é a tradução perfeita da "banalidade do mal", descrita por Arendt.

A renúncia ao pensamento crítico, a incapacidade de distinguir o certo do errado (sim, eles ainda existem), a elevação da violência (física ou moral) como valor estão nos conduzindo a caminhos tortuosos. É necessário recobrar a consciência e deixar a irracionalidade de lado. Seguindo os preceitos de John Locke em Dois Tratados sobre o Governo Civil (1681), de nada vale a liberdade, se não houver uma sociedade civil pactuada, capaz de conter as paixões e emoções que, na maioria das vezes, levam os homens aos excessos e à injustiça.