O Populismo e as Eleições

Rafael Marchesan Tauil
quinta-feira, 3 de Maio de 2018 - 09:58

O populismo não é fenômeno novo no mundo da política, pelo contrário, esta terminologia remonta o estudo de cenários políticos de um passado distante e de
diferentes regiões do mundo, como Rússia, Estados Unidos da América, México, entre outros. No Brasil não é diferente. Ao contrário do que se acredita, o populismo aqui não é um fenômeno recente, característica específica de alguns presidenciáveis que disputarão as eleições em outubro de 2018. O fenômeno remonta à década de 1930, durante a chamada era Vargas e se estende até a década de 1960 com a queda de João Goulart no Golpe Militar de 1964.


Além desta forma de governar, característica dos presidentes da geração 1930-60 no Brasil, o populismo esteve presente também entre candidatos ao governo do estado de São Paulo na década de 1960, tendo como figuras principais Jânio Quadros e Ademar de Barros. Francisco Weffort, o principal teórico do populismo no Brasil, iniciou suas formulações sobre o tema com uma pesquisa sobre estes candidatos. No Brasil, além de Weffort, se debruçaram sobre o tema do populismo autores como Octavio Ianni, José Álvares Moisés e Regis de Castro Andrade. Nesta senda de pesquisas durante a década de 1960, se iniciavam também as investigações sobre o populismo peronista na Argentina, através de teóricos como Gino Germani, Torcuato Di Tella, entre outros.


A ideia de populismo nos remete inicialmente à noção de compra de votos, troca de votos por benefícios pessoais, governantes demagogos, políticos carismáticos, entre outros elementos. A verdade é que alguns destes elementos ajudam a traçar as características de um governo ou de um governante populista, mas nem de perto completam sua definição de modo preciso. Alguns elementos se confundem com o voto de cabresto, outros com o coronelismo e por aí vão as confusões causadas neste campo epistemológico das tipificações políticas.


Há um famoso slogan evocado por Antonio Carlos Ribeiro de Andrada – um dos principais articuladores da Aliança Liberal em favor da campanha de Getúlio Vargas na década de 1930 – que representa uma boa síntese do que seria o populismo nas definições brasileiras consagradas sobre o tema: façamos a revolução antes que o povo a faça. A frase pode ser interpretada nestes termos como uma espécie de revolução pelo alto, feita pelas elites e não pelo povo. Deste modo, em síntese, o populismo pode ser compreendido como um momento histórico específico, quando uma crise de hegemonia política se impõe entre diferentes frações de classes dominantes e cabe a uma nova liderança – na maioria das vezes representada por um líder carismático – o papel de assumir este vácuo de poder, sob o risco da perda da hegemonia política para as forças populares. Neste sentido, o fenômeno seria consequência de um “vazio político” deixado pelas classes dominantes. Nesta lacuna de poder, estas classes se veem na necessidade eminente de retomar o poder político, antes que as classes dominadas a façam.Grande exemplo deste fenômeno no Brasil foi a crise da política café-com-leite.


São Paulo e Minas Gerais vinham perdendo sua hegemonia política em relação ao restante do país, o arranjo de alternância de poder vinha se desgastando e incomodando cada vez mais os Estados que estavam fora do acordo, a população estava cada vez mais insatisfeita com a situação de crise nacional e nenhuma das elites tradicionais conseguiam mais assumir o papel de liderança no cenário nacional para resolver estas questões, por conta de seus fracassos nos campos políticos e econômicos. Para que não houvesse o perigo de representações populares assumirem o poder, novas elites políticas – Getúlio Vargas e o grupo político que se articulava ao seu redor, neste caso específico – se anteciparam a este movimento popular e tomaram de assalto o Estado, com o discurso de que defendiam os interesses populares.


Fenômeno semelhante ocorre no Brasil dos dias atuais. Com o desgaste de um ciclo que passou pela crise econômica enfrentada pelo país desde o colapso das
commodities em 2014/2015, pelo esgotamento do modelo neodesenvolvimentista adotado desde a segunda metade de 2000 no Brasil, pelo descolamento cada vez maior entre classe política e sociedade civil, pela insatisfação popular com a situação nacional – bem manifestada pelas jornadas de junho de 2013 – e pela ausência completa de lideranças políticas e econômicas, capazes de aglutinar em torno de si um projeto comum em prol do desenvolvimento nacional, nos vimos às voltas com o que há de pior no espectro dos fenômenos populistas: um vácuo de poder a ser ocupado por líderes carismáticos que tentam se aproximar da população, através de discursos vazios, retrógrados, inflados de violência e palavras de ordem que tem como objetivo demonstrar que estão em plena capacidade de trazer de novo à população a paz, a ordem e a estabilidade financeira que lhes teria sido retirada desde o fim da ditadura militar.


Este tipo de líder carismático é bem-sucedido em momentos de crise como este, pois na ausência de lideranças legítimas e bem preparadas politicamente, capazes de trazer projetos e respostas concretas à população, utilizam-se de uma retórica capaz de convencer a população através de discursos que mobilizam a necessidade da retomada de preceitos de ordem, valor e moral. Numa sociedade plural como a brasileira, ofensivas como estas podem ser facilmente compreendidas como uma verdadeira caça às bruxas e um aviso de inquestionável retrocesso no campo das liberdades individuais, garantidas pelo Estado Democrático de Direito.


Governantes e lideranças populistas como estas não são novas, nem desconhecidas, mas se disfarçam de lobo em pele de cordeiro para ganhar a confiança de uma população preocupada com o desemprego, com a violência, com a desmoralização da sociedade, entre outros aspectos. Como solução apresentam ideias
despropositadas fundadas em devaneios ilusórios sem nenhuma base na realidade, mas num formato que dialoga e atinge em cheio os anseios do “cidadão de bem”. Hitler, Mussolini, Stalin, Franco não foram diferentes, só não esperávamos que lideranças como estas surgiriam tão cedo e tão perto de nós em busca da “solução final”. É hora de ficar atento e pensar bem no que fazer no outubro que se aproxima.

Rafael Marchesan Tauil
Doutor em Ciência Política pela UFSCar/University of Bristol, Mestre em
Ciências Sociais pela UNIFESP e graduado em Ciências Sociais pela FESPSP. É
professor da Escola Paulista de Direito e pesquisador do Laboratório de Política e
Governo da FCLar - UNESP.
Lattes: http://lattes.cnpq.br/4590034948734112
FAPESP: http://www.bv.fapesp.br/pt/pesquisador/678154/rafael-marchesan-
tauil/